O futuro da transmissão começa no planejamento
Publicado em 30 de outubro de 2026
Da expansão de novas linhas à inteligência de utilização da rede: como estudos, simulações e inovação preparam o sistema elétrico brasileiro para uma nova realidade
Thiago Guilherme Ferreira Prado | Presidente da Empresa de Pesquisa Energética (EPE) | PhD, eng.
Uma linha de transmissão pode levar anos para ser planejada, licenciada e construída. Nesse intervalo, surgem novas usinas, indústrias, data centers e demandas de eletrificação. Como preparar uma rede capaz de acompanhar essas transformações, sem comprometer a segurança de abastecimento ou impor custos desnecessários aos consumidores?
A resposta vai além de construir mais. Ela envolve usar melhor a infraestrutura disponível, antecipar necessidades, testar tecnologias e desenvolver mecanismos de acesso que distribuam adequadamente capacidade e riscos. É nessa ligação entre o futuro imaginado e a obra que será construída que a Empresa de Pesquisa Energética (EPE) desempenha um papel estruturante.
Uma transformação de escala e de localização
O Caderno de Demanda de Energia do PDE 2036 projeta que o consumo total de eletricidade no Brasil avançará de 702 TWh em 2026 para 979 TWh em 2036: crescimento de quase 40% em dez anos. O estudo também identifica o avanço de grandes cargas associadas a data centers, eletromobilidade e produção de hidrogênio por eletrólise.
Não se trata apenas de consumir mais energia. As novas cargas podem surgir em pontos específicos da rede, com horários, perfis e prazos de implantação diferentes. Ao mesmo tempo, a expansão eólica e solar modifica os fluxos de potência e a variabilidade da oferta. Planejar exige enxergar essas mudanças antes que se convertam em restrições físicas.
A EPE é o ponto de partida técnico das expansões
As novas instalações da Rede Básica têm origem em estudos coordenados pela EPE, realizados com participação de instituições e agentes setoriais. Nos Relatórios R1, os problemas de atendimento e de segurança são transformados em alternativas de solução, comparadas por critérios elétricos, econômicos e socioambientais. Essas recomendações alimentam o Programa de Expansão da Transmissão (PET) e o Plano de Expansão de Longo Prazo (PELP), que organizam obras determinativas e indicações de horizonte mais longo.
Por trás de cada empreendimento que chega a uma licitação há muito mais do que um traçado em mapa: há cenários de carga e geração, simulações de fluxo de potência, análises de contingência, estudos de estabilidade e avaliações de mínimo custo global. Esse trabalho coletivo torna a EPE um lugar de concepção de soluções para a rede — o berço técnico de boa parte da expansão que depois se converte em investimento.
Construção coletiva: o planejamento energético desenhado a muitas mãos
No contexto da Portaria MME nº 215, a EPE assume um papel catalisador na facilitação e na condução técnica dos Grupos de Estudos Temáticos (GETs), consolidando uma governança verdadeiramente participativa no setor elétrico. Mais do que liderar o aprimoramento metodológico, a atuação da EPE é a de construir pontes: fomentar um espaço qualificado de escuta ativa e colaboração direta entre operadores, agentes de mercado, especialistas e entidades do setor. Ao integrar essas diferentes perspectivas na modernização dos modelos e das ferramentas de simulação, o planejamento deixa de ser um exercício isolado e se torna uma construção viva, transparente e ancorada nos desafios reais da segurança e da transição energética do país.
A inovação pode liberar capacidade onde a rede já existe
As chamadas tecnologias de aprimoramento da rede — grid-enhancing technologies (GETs) — mostram que ampliar a capacidade útil nem sempre exige construir novos circuitos. Uma dessas soluções é o monitoramento dinâmico da capacidade de linhas (Dynamic Line Rating, DLR), que combina informações meteorológicas, como vento e temperatura, com modelos térmicos e dados de operação para estimar limites de carregamento conforme as condições reais. Em outubro de 2026, a EPE publicou estudo com recomendação inédita de DLR como solução estrutural para a linha de 138 kV Mogi Guaçu–São João da Boa Vista II, em São Paulo. A recomendação não significa que o dispositivo já esteja instalado: representa a incorporação da tecnologia ao conjunto de alternativas de planejamento.
Os sistemas flexíveis de transmissão em corrente alternada (FACTS) oferecem outra alternativa. Um compensador série síncrono estático (Static Synchronous Series Compensator, SSSC) altera eletronicamente a impedância equivalente do circuito e ajuda a controlar a distribuição dos fluxos de potência na rede. Em junho de 2026, entrou em operação em Ribeirão Preto (SP) o primeiro SSSC do Sistema Interligado Nacional, exemplo de aplicação prática de uma solução estudada pela EPE. Há ainda os conversores de fonte de tensão (Voltage Source Converter, VSC), utilizados em determinados sistemas de transmissão em corrente contínua: além de controlar a transferência de potência ativa, essa tecnologia permite controle independente de potência reativa e pode contribuir para o suporte de tensão e a integração de sistemas com características distintas. A escolha entre conversores VSC, tecnologias convencionais e outras soluções depende dos requisitos técnicos e econômicos de cada projeto.
Essas tecnologias complementam — e não eliminam — a necessidade de novas linhas. O papel do planejamento é submetê-las às mesmas perguntas feitas às soluções convencionais: quanto custam, quais restrições resolvem, que benefícios entregam e como se comportam em situações críticas.
O armazenamento de energia por baterias (Battery Energy Storage Systems, BESS) também passou a integrar as alternativas avaliadas nos estudos de planejamento da transmissão. Um exemplo é o atendimento a Feijó e Cruzeiro do Sul, no Acre. Em janeiro de 2026, a EPE recomendou, para o período conjuntural, um BESS de 100 MW e 200 MWh na Subestação Cruzeiro do Sul, associado a reforços estruturais da rede de 230 kV. A recomendação resultou de análises elétricas, econômicas e socioambientais e não deve ser confundida com uma obra já contratada ou implantada.
A solução proposta utiliza tecnologia grid-forming, capaz de contribuir para a formação das condições elétricas de operação, responder rapidamente a contingências e prestar serviços ancilares. Ao comparar baterias, reforços convencionais e outras tecnologias, a EPE demonstra como o planejamento pode ir além da indicação de linhas e subestações: torna-se um espaço de experimentação metodológica e de incorporação fundamentada de inovação, sem perder de vista a confiabilidade e o custo global para a sociedade.
Modelos, dados abertos e conhecimento que circula
Uma contribuição decisiva da EPE ocorre antes da recomendação de qualquer obra: a produção e o compartilhamento de conhecimento. A Empresa organiza e publica bases de referência para estudos de fluxo de potência, curto-circuito e transitórios eletromecânicos, inclusive em formatos usados por ferramentas como ANAREDE, ANAFAS e ANATEM. Isso permite que universidades, empresas, pesquisadores e outras instituições reproduzam cenários, comparem soluções e desenvolvam novas abordagens.
A EPE também utiliza diferentes classes de modelos para investigar cenários de expansão, desempenho elétrico, riscos, investimentos e alternativas tecnológicas. O valor desse trabalho não está em um programa isolado, mas na combinação entre dados de qualidade, hipóteses transparentes, métodos de simulação e capacidade de interpretação dos resultados.
Essa vocação de desenvolvimento tecnológico vai além da transmissão. Em outubro de 2026, EPE, ONS e CCEE divulgaram o avanço de um Novo Modelo computacional de código aberto, inicialmente orientado ao planejamento e à programação da operação e à formação de preços, com possibilidade de funcionalidades futuras associadas à expansão. O exemplo demonstra como a cooperação institucional e o acesso público a ferramentas podem ampliar a transparência, a inovação e a formação de capacidades técnicas no País.
Planejar o futuro exige acompanhar as transformações do presente. Para responder a esse desafio com ferramentas e simulações modernas, a EPE apresentou à sociedade o Projeto G+T. A iniciativa traz mais profundidade e precisão à otimização dos recursos eletroenergéticos, além de criar uma esteira de evolução contínua para o novo modelo de código aberto com visão de longo prazo. Fique atento às nossas redes sociais: os primeiros resultados desse projeto chegam já em 2027!
A demanda e o acesso podem ser mais flexíveis
A resposta da demanda permite que consumidores ajustem voluntariamente seu consumo mediante regras e incentivos, contribuindo para atender períodos críticos do sistema. A experiência brasileira já inclui mecanismos de contratação dessa flexibilidade. Para o planejamento, isso amplia o conjunto de alternativas: o recurso não precisa estar apenas do lado da geração ou da expansão física.
Também merece estudo a contratação flexível da capacidade de transmissão. Um consumidor que possa aceitar limites temporários de uso, em condições explicitamente pactuadas, apresenta necessidades diferentes das de outro que exige atendimento integral em qualquer condição prevista. Produtos de acesso firme e não firme podem, quando houver respaldo regulatório e segurança elétrica, melhorar a utilização da rede sem confundir capacidade disponível com garantia irrestrita de atendimento.
PNAST: antecipar empreendimentos e qualificar sinais de investimento
A Política Nacional de Acesso ao Sistema de Transmissão (PNAST), instituída pelo Decreto nº 12.772/2025, aproxima o processo de acesso do planejamento. O decreto determina que a EPE realize chamadas públicas anuais para mapear potenciais de geração, grandes consumidores, polos e parques industriais, portos e outros projetos com impacto relevante sobre a rede.
A partir dessas informações, a Empresa poderá avaliar possibilidades de expansão proativa e estudar alternativas antes que a falta de capacidade se torne um obstáculo. Esse avanço exige distinguir oportunidades de desenvolvimento de projetos com decisão efetiva de implantação: construir tarde demais limita investimentos, mas construir cedo demais, sem demanda materializada, pode gerar custos para toda a coletividade.
A PNAST também contempla Temporadas de Acesso e processos competitivos para alocar capacidade, inclusive futura e condicionada a investimentos. Nessa agenda, mecanismos de garantia e instrumentos financeiros de mitigação de riscos podem ajudar a sinalizar compromisso dos interessados e proteger os usuários que remuneram a rede. O desenho de soluções adicionais precisa respeitar as competências regulatórias, a competição e o princípio de mínimo custo global.
O leilão de 30 de outubro materializa decisões que começaram em estudos
O Leilão de Transmissão nº 04/2026, previsto para 30 de outubro, apresenta investimentos estimados em R$ 8,88 bilhões, com cerca de 1.866 quilômetros de linhas e 12.694 MVA de capacidade de transformação, conforme os dados divulgados pela EPE. O certame traduz necessidades diagnosticadas e alternativas avaliadas em projetos de infraestrutura que serão contratados para implantação.
O leilão de novos empreendimentos e os processos competitivos de alocação de margem de acesso não são a mesma coisa. O primeiro contrata instalações de transmissão; os segundos organizam o direito de utilização de capacidade em condições específicas. São instrumentos complementares de um sistema que precisa coordenar obra, tecnologia, acesso e risco econômico.
Concessões vincendas: modernizar também é expandir
A próxima etapa de modernização da rede inclui olhar com atenção para os contratos de concessão que se aproximam do fim da vigência. Nesses casos, a análise de alternativas não deve se limitar a reproduzir a configuração dos ativos existentes: é uma oportunidade de identificar necessidades de reforço, substituição, digitalização, automação e otimização, considerando o serviço que o sistema precisará prestar nas próximas décadas.
A agenda conjunta do MME e da EPE para 2026 prevê 45 estudos de transmissão, dos quais seis abordam concessões em fim de vigência até 2030. Em observância ao Decreto nº 11.314/2022, essas análises podem apoiar decisões do poder concedente sobre melhorias, reforços e novas instalações associados aos ativos, com previsibilidade para futuras licitações. A decisão sobre licitar ou prorrogar contratos e a definição das condições regulatórias não cabem isoladamente à EPE.
O valor público dessa abordagem está em aproveitar os momentos de renovação contratual para qualificar a infraestrutura e reduzir a possibilidade de perpetuar soluções menos eficientes. Digitalizar e modernizar ativos existentes também é preparar a transmissão para o futuro.
A mudança do clima altera a capacidade e o risco da transmissão
A transmissão é uma infraestrutura exposta ao clima. Temperaturas mais altas podem diminuir a capacidade de condução de energia nos cabos e reduzir a eficiência de equipamentos, ao mesmo tempo em que elevam o consumo de eletricidade para refrigeração. Ventos extremos, incêndios, inundações e descargas atmosféricas podem afetar a integridade física das instalações e a continuidade do serviço.
A EPE já aborda esses impactos em estudos de resiliência climática e em análises socioambientais da expansão. Seu fact sheet “Transmissão e Mudanças Climáticas" registra, com base em dados do ONS, que descargas atmosféricas, queimadas, ventos fortes e chuva ou temporal responderam por 43% dos desligamentos de linhas de transmissão no período de 2014 a 2023. O percentual se refere às ocorrências analisadas, não à parcela da rede fisicamente comprometida.
Essas evidências devem influenciar tanto a avaliação dos ativos existentes quanto a concepção das novas instalações: critérios de projeto, escolha de localização, exposição a inundações e incêndios, condições térmicas dos equipamentos, alternativas de redundância e capacidade de recomposição. A resiliência climática não pode ser uma correção tardia; precisa integrar, desde a origem, a avaliação de soluções para expansão da rede.
Antecipar o diálogo ambiental melhora as decisões de infraestrutura
Planejamento integrado não significa confundir atribuições institucionais. À EPE cabe produzir estudos e recomendações técnico-econômicas e socioambientais; ao MME, exercer as competências de política energética e poder concedente; à ANEEL, as funções regulatórias e de condução dos certames; ao ONS, as competências de operação e acesso; e aos órgãos ambientais, as análises e decisões do licenciamento dentro de suas respectivas esferas.
Essa divisão de competências não impede — ao contrário, recomenda — a interlocução técnica antecipada. Projetos com maior sensibilidade socioambiental podem se beneficiar de consultas prévias aos órgãos competentes ainda na etapa de planejamento, quando alternativas de localização, traçado e tecnologia podem ser comparadas com maior liberdade e menor custo de revisão.
Em janeiro de 2025, a EPE e o Ibama firmaram acordo de cooperação técnica que contempla consultas na etapa de planejamento de linhas de transmissão, especialmente em estudos de elevada complexidade socioambiental e potencial licenciamento federal. A EPE também registra interlocução com órgãos ambientais estaduais e outros órgãos intervenientes, conforme as características de cada projeto.
O objetivo não é antecipar licença ou substituir a avaliação formal do órgão competente. É chegar a essa etapa com melhores alternativas, informações mais completas e riscos previamente identificados — um ganho para a sociedade, para o ambiente, para os investidores e para o próprio planejamento.
Planejar é também inovar e formar capacidades
Um planejamento moderno não se mede somente em quilômetros recomendados ou em volume de investimento previsto. Mede-se também pela qualidade das decisões que permite tomar, pelas soluções novas que consegue testar e pelo conhecimento que coloca à disposição do setor e da sociedade.
A EPE ocupa uma posição singular nesse processo: reúne estudos de longo prazo, simulação rigorosa, articulação entre instituições, avaliação de novas tecnologias e difusão de dados e métodos. É onde muitas expansões começam e onde alternativas ainda não convencionais podem ser avaliadas com independência técnica, antes de chegar à regulação, à contratação e à operação.
Para sustentar essa agenda, o fortalecimento das equipes técnicas também importa. A ampliação do quadro de especialistas em transmissão ocorrida durante a atual gestão da EPE reforça a capacidade institucional de desenvolver estudos simultâneos, aprofundar simulações, analisar alternativas tecnológicas e compartilhar metodologias com o setor. O resultado buscado é um planejamento com maior capacidade de antecipação, sem abrir mão da consistência técnica e da avaliação independente de custos, benefícios e riscos.
A transmissão do futuro exigirá novas obras, mas também a modernização dos ativos existentes, inovação tecnológica, flexibilidade de contratação, resiliência climática e cooperação institucional antecipada. O papel da EPE é dar origem a essas decisões com estudos, simulações, desenvolvimento metodológico e conhecimento público — para que cada expansão entregue segurança, eficiência e valor à sociedade.
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