Publicado em 19 de junho de 2026

Fotos: Enase 2026
Nos dias 17 e 18 de junho, a 23ª edição do Encontro Nacional de Agentes do Setor Elétrico (Enase) reuniu, no Rio de Janeiro, líderes, decisores e especialistas para debater o futuro da energia — e, como elaboradora dos estudos de planejamento que estão na base do desenvolvimento do setor energético, a Empresa de Pesquisa Energética (EPE) participou de discussões sobre governança, expansão, operação e inovação, nas quais se destacou, entre outros aspectos, a importância crescente da flexibilidade para o setor.
No painel inaugural “Abertura com Governança", o presidente da EPE, Thiago Prado, anunciou a conclusão de um estudo sobre flexibilidade que identifica em quais momentos o sistema precisa desse atributo e como isso deve ser considerado no planejamento, assim como o lançamento próximo de uma análise integrada de planejamento da geração e da transmissão, previsto para o fim de junho, que trará maior detalhamento dos dados de modo a melhor representar os recursos energéticos distribuídos.

Moderado pelo presidente do Fórum das Associações do Setor Elétrico (FASE) e da Associação Brasileira dos Investidores em Autoprodução de Energia (Abiape), Mario Menel, o painel, que teve como foco a segurança energética frente a desafios como sobreoferta e o curtailment, também contou com diretora da Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel), Agnes Costa, o Diretor de Planejamento do Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS), Alexandre Zucarato, o Secretário-Executivo do Ministério de Minas e Energia (MME), Gustavo Ataíde, e o Diretor de Gestão de Mercado da Câmera de Comercialização de Energia Elétrica (CCEE), Ricardo Simabuku.
Na ocasião, o presidente da EPE destacou ainda a relevância do armazenamento de energia, inclusive de sistemas de armazenamento hidráulico, não só para a flexibilidade, segurança e resiliência do sistema elétrico, mas também para usos secundários, chamados “serviços ancilares". Como apontou Thiago Prado, “principalmente nas análises de mudanças climáticas que temos na EPE, a maior mensagem é que temos um Norte e Nordeste mais secos e um Sul com maior precipitação", sendo, assim, útil “buscar capacidade de armazenamento onde possamos ter excesso de água, para fazer controle de cheias, por exemplo".
Visão sistêmica e de longo prazo
Ainda do primeiro dia de evento, o Superintendente de Geração de Energia (SGR) da EPE, Gustavo Ponte, participou de debate sobre a visão sistêmica do setor e superação da fragmentação no setor elétrico.
Durante a discussão, Ponte ressaltou que estudos de médio e longo prazo como o Plano Decenal de Expansão de Energia (PDE) e o Plano Nacional de Energia (PNE) oferecem uma visão conjunta do setor, contemplando “as soluções que levam ao menor custo de atendimento". O superintendente também sublinhou a importância do sinal de preço e do papel ativo das distribuidoras para a expansão do armazenamento distribuído e ampliação da flexibilidade, que, ao lado das mudanças climáticas, emerge como um dos principais desafios no longo prazo.

Resposta de demanda
Gustavo Ponte retornou no segundo dia de Enase para a mesa “Resposta da Demanda - Como combater o déficit de potência e reforçar a segurança energética?". “Hoje a resposta da demanda contribui menos de 0,5% do atendimento à demanda de ponta, mas, no PDE 2035, estimamos que a contribuição dela nos próximos dez anos pode aumentar 3,2 GW, contribuindo para o atendimento de ponta, mas também para os requisitos, cada vez maiores de flexibilidade, cada vez maiores, do Sistema Interligado Nacional (SIN)", explicou Ponte.
O superintendente afirmou que a Resposta da Demanda pode ser vista como uma solução estrutural e que a EPE tem apoiado o MME no desenvolvimento de um desenho mais robusto para extrair mais da resposta da demanda no Brasil, com estudos sobre metodologias baseadas na experiência internacional e o desenho de possíveis produtos para a contratação desse recurso no futuro.
Repotenciação de hidrelétricas e usinas reversíveis
Também no segundo dia, o Analista de Pesquisa Energética Diego Almeida integrou o painel Repotenciação e Ampliação das UHEs e UHReversíveis. “As hidrelétricas entram numa nova era de operação e contribuição para o setor elétrico brasileiro. A modernização do parque trará um ganho inestimável ao SIN, seja porque o sistema vai operar em níveis de eficiência mais elevados, seja porque o sistema vai conseguir incrementar a capacidade disponibilizada pelas hidrelétricas e aumentar a oferta de energia hidráulica do sistema", afirmou.

Recuperação energética e resíduos
Por fim, a Diretora de Estudos do Petróleo, Gás e Biocombustíveis da EPE, Heloisa Borges, participou do painel “Recuperação Energética e Resíduos", que explorou o potencial energético dos resíduos urbanos como fonte confiável e contínua de energia no contexto da transição energética urbana e da economia circular.
Convidada a apresentar a visão da EPE sobre as rotas a biometano e gás natural, a diretora pontuou a necessidade de “entender os atributos das diferentes fontes e valorizá-las de forma a aproveitar as complementaridades de cada uma". Entre os caminhos para o aumento da competitividade do aproveitamento de resíduos, destacou os projetos de PD&I na Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) destinados a aumentar a eficiência dessas soluções, bem como os ganhos de escala como forma de aumentar sua economicidade.
Heloisa mencionou que a EPE dispõe de “ferramentas que auxiliam as municipalidades a calcular e a viabilizar o aproveitamento econômico dos resíduos, até mesmo a logística de coleta de resíduos sólidos urbanos", como “por exemplo, ônibus movidos a biogás e biometano de resíduos". O Sistema de Informações para Energia (SIEnergia) da EPE integra combustíveis e energia elétrica, sob os aspectos de recursos, oferta, demanda de energia, para a condução de estudos econômico-energéticos e ambientais.
A diretora frisou a importância de analisar a intensidade de carbono no ciclo de vida: “Hoje ainda não estamos endereçando corretamente e atribuindo valor a essa baixa intensidade de carbono. Se pensarmos numa geração térmica a partir de resíduos sólidos urbanos, a conta completa do ciclo de vida muitas vezes chega a ser negativa. Conseguimos ter uma eletricidade carbono-negativo se acoplarmos uma captura de carbono na planta de geração."
Para Heloisa Borges, tratar do aproveitamento de resíduos significa conectar a política energética a outras políticas públicas — de resíduos sólidos urbanos, ambientais, urbanísticas — de modo a aproveitar a abundância de recursos energéticos própria do Brasil da melhor forma possível.
Nesse contexto, a EPE publicou em 2025 o Plano Nacional Integrado de Gás Natural e Biometano (PNIIGB), que sinaliza, nas palavras da diretora, “uma visão conjunta de infraestrutura, de longo prazo, na qual conseguimos ver valor e criar modelos de negócio que permitem o aproveitamento desse recurso [os resíduos sólidos] na sua conversão não só para eletricidade, mas em metano renovável, e através disso descarbonizar o setor energético".

Meetups
A Diretora de Estudos do Petróleo, Gás e Biocombustíveis, Heloisa Borges, e o Diretor de Estudos de Energia Elétrica da EPE, Reinaldo Garcia, participaram de rodas de conversa com executivos de empresas de geração, distribuição, comercialização e transmissão de energia, além de consultores e especialistas do setor, em sessões de compartilhamento de ideias e soluções para os desafios dos seus negócios. Os temas abordados nos meetups do Enase incluíram curtailment, modernização do setor, segurança energética, desafios operacionais, armazenamento.

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