Publicado em 24 de julho de 2026
A Empresa de Pesquisa Energética (EPE) apresentou, durante o IEEE Power & Energy Society General Meeting 2026, realizado entre 19 e 23 de julho, em Montreal, no Canadá, os principais resultados do Estudo de Expansão das Interligações Regionais, que recomendou a primeira aplicação da tecnologia HVDC-VSC no Sistema Interligado Nacional (SIN). O evento reúne especialistas (das áreas de planejamento, operação e regulação), pesquisadores e representantes da indústria de energia elétrica para discutir desafios e inovações relacionados à expansão, à operação e à modernização dos sistemas elétricos. A missão da EPE contou com a participação da Consultora Técnica Thaís Teixeira, responsável pela apresentação do estudo, e do Analista de Pesquisa Energética Glaysson Muller.
A apresentação, intitulada “Planning Study for the First HVDC-VSC Application in Brazil”, destacou a metodologia adotada pela EPE para avaliar a expansão das interligações regionais, desde o diagnóstico das necessidades do sistema e a análise de diferentes alternativas tecnológicas até a definição da solução de referência. O trabalho também abordou as consultas realizadas junto à indústria, os desafios associados à proteção de sistemas HVDC-VSC com linhas aéreas e as estratégias utilizadas para reduzir os riscos relacionados à evolução tecnológica, à capacidade da cadeia global de fornecimento e à competição no futuro leilão de transmissão.
Entre as recomendações do estudo está o Bipolo Nordeste II, sistema em corrente contínua com conversores do tipo fonte de tensão — VSC — concebido para ampliar a capacidade de intercâmbio entre as regiões brasileiras. Na configuração de referência, o empreendimento prevê um elo de aproximadamente 2.500 quilômetros, com tensão de ±600 kV e potência nominal de 3.000 MW, associado a outras ampliações na rede em corrente alternada. A solução foi selecionada por apresentar o melhor equilíbrio entre desempenho técnico, flexibilidade operativa e custos.
A expansão proposta permitirá elevar a capacidade de exportação de energia das regiões Norte e Nordeste, onde se concentra parcela expressiva da expansão eólica e solar prevista para os próximos anos, e ampliar a capacidade de importação das regiões Sudeste e Sul, a fim de assegurar o atendimento à demanda e aumentar a resiliência do sistema diante de cenários hidrológicos críticos.
Além de aumentar a capacidade de transferência de energia entre as regiões, a tecnologia VSC oferece recursos importantes para a operação de um sistema com participação crescente de fontes renováveis baseadas em inversores. Entre eles estão o controle independente de potência ativa e reativa, o suporte de tensão, a possibilidade de inversão do fluxo de potência e a operação em redes eletricamente mais fracas. A solução contribui, assim, para ampliar a segurança, a flexibilidade e a estabilidade do sistema elétrico brasileiro.
A implantação do conjunto de obras recomendado também deverá contribuir para a redução de restrições elétricas locais, provocados pelo atual diagnóstico de colapso de tensão em cenários críticos de operação, reduzindo o curtailment de geração por confiabilidade. Nesse sentido, com a eliminação de gargalos elétricos atualmente existentes, a expansão deverá abrir novas margens para a conexão de projetos de geração, de grandes consumidores e de sistemas de armazenamento de energia em baterias — BESS.
Esses benefícios são particularmente relevantes diante do crescimento esperado da demanda, da geração renovável variável e de novas cargas eletrointensivas. Ao combinar expansão da capacidade de transmissão, suporte dinâmico ao sistema e maior flexibilidade operativa, a solução de planejamento cria condições para a expansão segura e sustentável do setor elétrico, reduzindo limitações à utilização dos recursos energéticos disponíveis e atraindo novos investimentos em infraestrutura para o país, da ordem de R$ 20 bilhões.
A apresentação no IEEE PES General Meeting amplia a divulgação internacional do estudo e permite compartilhar a experiência brasileira no planejamento de uma aplicação de grande porte e longa distância baseada em HVDC-VSC, tecnologia inovadora, considerada estratégica para viabilizar a transição energética em curso em diversos países. A iniciativa também contribui para aproximar o planejamento brasileiro da comunidade técnica internacional, estimular o desenvolvimento de competências e soluções industriais e posicionar o projeto como referência para futuras aplicações da tecnologia em sistemas com elevada participação de fontes renováveis.
A EPE já disponibilizou publicamente o estudo e as bases de dados utilizadas nas análises, reforçando o compromisso com a transparência, a reprodutibilidade dos resultados e o diálogo técnico com agentes do setor, fabricantes, instituições de pesquisa e demais interessados.