Publicado em 2 de outubro de 2026
A Empresa de Pesquisa Energética (EPE) concluiu o Estudo de Atendimento à Região Sul do Rio Grande do Sul, que identifica necessidades de expansão da infraestrutura elétrica da região e recomenda um conjunto de obras nos sistemas de transmissão e distribuição. O objetivo é preparar a rede para o crescimento da demanda, ampliar a confiabilidade do fornecimento de energia e criar alternativas de atendimento para os consumidores da região.
A rede de transmissão do Sul do Rio Grande do Sul tem papel estratégico para o desenvolvimento econômico da região, pois conecta centros urbanos e atividades industriais e agropecuárias ao Sistema Interligado Nacional. Com o crescimento do consumo de energia e a evolução das condições de operação dos sistemas de distribuição, tornou-se necessário avaliar a capacidade da infraestrutura existente e identificar os reforços necessários para garantir um atendimento adequado nos próximos anos.
O estudo analisou, entre outros aspectos, a necessidade de ampliar a capacidade de transformação, modernizar instalações existentes e criar pontos de suprimento. A análise também considerou equipamentos próximos do fim de sua vida útil e a necessidade de adequar algumas subestações aos critérios atuais de planejamento e operação.
Novos pontos de suprimento vão dar mais flexibilidade ao sistema
Após a comparação de diferentes alternativas sob os pontos de vista técnico, econômico e socioambiental, a EPE definiu um conjunto de obras estruturais para o atendimento à região. Entre as principais recomendações estão novos pontos de suprimento pela Rede Básica em São Gabriel, Universitária, Dom Pedrito, São Lourenço, Piratini e Tabatinga, além da implantação de um novo pátio de 138 kV na Subestação Alegrete 2.
Na prática, essas novas conexões aproximam a Rede Básica dos centros de consumo e oferecem às distribuidoras mais opções para alimentar suas redes. Isso aumenta a flexibilidade operacional e facilita o remanejamento de cargas quando alguma parte do sistema estiver indisponível, principalmente em situações de eventos climáticos extremos.
O estudo também recomenda ampliações de capacidade em subestações existentes, substituição de transformadores em final de vida útil, adequações de barramentos e novos seccionamentos de linhas de transmissão. Em conjunto, essas medidas buscam aumentar a robustez da rede e melhorar as condições de atendimento à população e às atividades econômicas da região.
Resiliência climática passa a influenciar o planejamento das novas obras
Além das necessidades elétricas que motivaram o estudo, o trabalho incorporou uma preocupação que ganhou ainda mais relevância após as enchentes de 2024: a resiliência da infraestrutura de energia diante de eventos climáticos extremos. Os eventos de 2024, no entanto, mudaram a forma como as futuras instalações passaram a ser avaliadas. As enchentes afetaram usinas, linhas de transmissão e subestações no Rio Grande do Sul e levaram a EPE a incorporar de maneira mais explícita a resiliência climática ao planejamento da expansão.
Foram considerados dados das enchentes, informações obtidas em campo e contribuições dos agentes locais. A partir dessa análise, foram revistos aspectos como localização de novas subestações e traçados de linhas de transmissão, buscando reduzir a exposição das futuras instalações a situações semelhantes às registradas em 2024.
Assim, a resiliência climática não define quais problemas elétricos precisam ser resolvidos, mas passa a influenciar como e onde as soluções futuras devem ser implantadas. Essa abordagem representa uma evolução no planejamento da transmissão. Além dos critérios técnicos, econômicos e socioambientais tradicionalmente utilizados, as novas obras passam a considerar de forma mais direta a capacidade da infraestrutura de enfrentar condições climáticas extremas e continuar desempenhando sua função no sistema elétrico.
Mais de R$ 3 bilhões em investimentos previstos na Rede Básica, Demais Instalações de Transmissão e Rede de Distribuição
O conjunto de soluções selecionado representa investimentos estimados em cerca de R$ 3,09 bilhões, considerando obras na Rede Básica, nas Demais Instalações de Transmissão (DIT) e nos sistemas de distribuição. Desse total, aproximadamente R$ 1,43 bilhão corresponde à Rede Básica, enquanto os demais investimentos estão associados às instalações de transmissão e às redes das distribuidoras locais.
Com a implantação dessas obras, a região Sul do Rio Grande do Sul deverá contar com uma infraestrutura elétrica mais robusta, flexível e preparada para acompanhar o crescimento do mercado. Ao mesmo tempo, a incorporação da resiliência climática ao planejamento busca fazer com que as novas instalações sejam concebidas de forma mais adequada aos desafios impostos por eventos extremos, contribuindo para a segurança do fornecimento de energia no longo prazo.
Outros estudos no âmbito do planejamento da transmissão que incorporam ou abordam a questão da resiliência do SIN
A crescente intensificação de eventos climáticos extremos tem ampliado os desafios associados ao planejamento e à operação dos sistemas de transmissão de energia elétrica. Fenômenos como descargas atmosféricas, queimadas, secas severas, ondas de calor, inundações e vendavais vêm produzindo impactos cada vez mais relevantes sobre a infraestrutura elétrica, afetando tanto a confiabilidade do suprimento quanto a capacidade de transferência de energia entre regiões. Dessa forma, a EPE vem atuando de forma pioneira na incorporação dessa temática aos estudos de planejamento da transmissão, conforme exemplos apresentados a seguir.
EPE-DEE-RE-039-2019 - Estudo de Atendimento à Região Metropolitana de Porto Alegre - Revisão de Projetos de Transmissão após as Enchentes no Rio Grande do Sul
As enchentes ocorridas no Rio Grande do Sul em 2024 tiveram impactos significativos sobre a infraestrutura elétrica e motivaram a reavaliação de projetos associados ao Leilão de Transmissão nº 02/2024, especificamente, as novas subestações de fronteira São Sebastião do Caí 2 e Ivoti 2. A experiência demonstrou a necessidade de complementar os critérios tradicionais de planejamento com avaliações específicas relacionadas à exposição física dos empreendimentos a eventos climáticos extremos.
Nesse contexto, a EPE promoveu revisões de traçados de linhas de transmissão, reavaliação de áreas destinadas à implantação de subestações e inspeções em campo voltadas à identificação de riscos associados a inundações, enxurradas e movimentos de massa. O caso representa uma das primeiras aplicações práticas de conceitos de adaptação climática na revisão de recomendações de expansão da transmissão em função da consideração da ocorrência de eventos climáticos extremos.
EPE-DEE-RE-057-2024 - Reforços para resiliência no sistema de transmissão Acre e Rondônia em resposta às mudanças climáticas
A estiagem severa observada na bacia do rio Madeira em 2023 e 2024 evidenciou condições específicas que podem levar a vulnerabilidades no suprimento dos estados do Acre e Rondônia. A redução extrema das vazões levou ao desligamento da UHE Santo Antônio e à operação das demais usinas da região com disponibilidade bastante reduzida, criando condições inéditas de risco para o atendimento às cargas locais.
Em resposta a esse cenário, a EPE desenvolveu o estudo “Reforços para Resiliência no Sistema de Transmissão Acre e Rondônia em Resposta às Mudanças Climáticas", que combinou análises energéticas e elétricas para avaliar cenários climáticos extremos, identificar vulnerabilidades estruturais e propor reforços à rede de transmissão. Através das análises integradas realizadas foi possível aplicar avalições diferenciadas para o subsistema Acre e Rondônia, visando prover uma abordagem mais robusta e flexível para a rede elétrica local.
Foram consideradas variações climáticas severas nos cenários de diagnóstico, o que permitiu caracterizar obras com benefícios sistêmicos em múltiplos cenários e com reduzido custo de arrependimento. Também foi observada a oportunidade de diversificação de corredores de linhas de transmissão, que podem ser afetadas por eventos climáticos extremos, e a oportunidade de gestão diferenciada dos reservatórios das UHEs locais.
EPE-DEE-RE-071-2025 - Expansão das Interligações Regionais: Exportação da Região Nordeste e Importação da Região Sul
O estudo avaliou alternativas para ampliação da capacidade de exportação de energia da Região Nordeste e de importação pela Região Sul, tendo como pano de fundo a crescente participação de fontes renováveis variáveis no SIN, a expansão projetada da demanda e a necessidade de adaptação do sistema a cenários operativos cada vez mais desafiadores. Destaca-se, nesse contexto, a preocupação explícita com o atendimento seguro da região Sul em cenários de escassez hídrica severa, reconhecendo que eventos dessa natureza podem se tornar mais frequentes e intensos em decorrência das mudanças climáticas.
O estudo conclui que o fortalecimento das interligações regionais constitui medida de mínimo arrependimento para aumentar a segurança energética e reduzir a exposição do sistema a riscos associados à variabilidade climática e às incertezas da expansão da oferta de geração. Sob a ótica da resiliência, o estudo representa uma evolução importante do planejamento da transmissão ao propor soluções capazes de aumentar a flexibilidade operativa, a capacidade de intercâmbio entre subsistemas e a robustez do SIN frente a contingências severas e mudanças estruturais da matriz elétrica.
A recomendação do novo bipolo HVDC Nordeste II, associada a reforços em corrente alternada, compensadores síncronos e critérios específicos de segregação física e redundância das instalações, busca reduzir vulnerabilidades sistêmicas, ampliar a capacidade de recuperação diante de falhas relevantes e criar condições para o aproveitamento seguro de grandes blocos de geração renovável. Essa diretriz reforça os aprendizados obtidos durante a crise hídrica de 2021, quando a ampliação temporária da capacidade de intercâmbio entre regiões permitiu o aproveitamento dos excedentes de geração eólica e solar do Norte e Nordeste para preservar os reservatórios do Sudeste e Centro-Oeste, resultando em uma economia estimada de R$ 11,1 bilhões para o setor elétrico brasileiro.
O episódio evidenciou que o fortalecimento das interligações regionais aumenta não apenas a segurança operativa do SIN, mas também sua capacidade de adaptação a eventos extremos e sua eficiência econômica em situações críticas. Dessa forma, as obras recomendadas não apenas ampliam a capacidade de transmissão do sistema, mas contribuem diretamente para o fortalecimento da resiliência do SIN frente aos desafios operacionais, tecnológicos, econômicos e climáticos das próximas décadas.
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