Estudo aponta que considerar cenários climáticos pode reduzir custos operativos em até 13% e aumentar a segurança de suprimento
Rio de Janeiro – novembro de 2025 – Planejar a expansão e a operação do sistema elétrico brasileiro sem levar em conta os efeitos das mudanças climáticas pode resultar em uma operação mais cara e com maior risco de desabastecimento. Essa é uma das principais conclusões do estudo "Impactos das Mudanças Climáticas no Planejamento da Geração de Energia Elétrica", lançado nesta terça-feira, 4 de novembro, no Rio de Janeiro.
O trabalho foi desenvolvido no âmbito do Projeto Sistemas de Energia do Futuro, fruto da Cooperação Brasil-Alemanha para o Desenvolvimento Sustentável, executado pela Deutsche Gesellschaft für Internationale Zusammenarbeit (GIZ) GmbH em parceria com o Ministério de Minas e Energia (MME) e com recursos do Ministério Federal da Cooperação Econômica e do Desenvolvimento (BMZ) da Alemanha. O projeto tem como objetivo principal apoiar a integração das energias renováveis e eficiência energética no sistema brasileiro de energia. O estudo foi desenvolvido a partir da parceria com a Empresa de Pesquisa Energética (EPE) e o consórcio formado pela PSR e a Tempo OK.
Baseado em projeções climáticas de alta resolução e simulações avançadas de operação e expansão do Sistema Interligado Nacional (SIN), o trabalho revela que, ao considerar diferentes cenários de mudanças climáticas ao planejamento, há a possibilidade de redução dos custos de operação em até 13%, o que representaria um efeito médio de 7% nas tarifas de energia.
De acordo com Gustavo Ponte, superintendente de Geração de Energia da EPE, este estudo dá continuidade a uma série de trabalhos da Empresa sobre impacto das mudanças climáticas, desta vez com um foco na expansão da geração de energia. Para tanto, foi necessário reunir especialistas de diversas áreas do conhecimento e contar com o apoio de instituições parceiras, como INPE, ANA, ONS e GIZ, dada a complexidade do estudo. Os resultados mostram que as mudanças climáticas introduzem mais uma camada de incerteza no planejamento energético, uma vez que o impacto na disponibilidade dos recursos hídrico, eólico e solar vai depender da trajetória climática global e que os modelos climáticos levam a resultados distintos, embora seja possível observar tendências. Essas conclusões reforçam a importância do planejamento energético, para que possamos nos antecipar a esses desafios e assegurar a confiabilidade do suprimento de energia elétrica ao menor custo.
"Considerar diferentes cenários climáticos no planejamento energético é essencial para um país com alta participação de fontes renováveis, como o Brasil. Incorporar essas variáveis contribui para reduzir custos operacionais e lidar de forma mais precisa com as incertezas associadas à disponibilidade de recursos. Esse estudo é resultado da soma de esforços entre a Cooperação Brasil-Alemanha e instituições de referência, como EPE, ONS, ANA e INPE, que contribuíram com conhecimento técnico e científico para o desenvolvimento dessa análise robusta e estratégica para o setor elétrico brasileiro", explica Daniel Almarza, diretor do Projeto Sistemas de Energia do Futuro, da GIZ.
"Buscamos avançar o estado da arte das metodologias de planejamento e operação de sistemas elétricos considerando as incertezas na projeção das mudanças climáticas. Avaliamos impactos tanto sobre a oferta de energia renovável como sobre a demanda elétrica. Também analisamos impactos regulatórios e sociais", afirma Rafael Kelman, diretor executivo da PSR, responsável pela condução do estudo.
- Metodologia e resultados
Partindo de um cenário em que a demanda elétrica seja igual ao dobro da atual, foram utilizados modelos computacionais de planejamento da operação energética de médio e longo prazo (SDDP) e de planejamento da expansão energética (OptGen) para a determinação de cenários de expansão da oferta de energia para o atendimento dessa demanda. Em seguida, a partir de matrizes futuras possíveis, com diferentes composições de fontes e tecnologias, foram realizadas simulações operativas do SIN considerando os impactos das mudanças climáticas.
De acordo com o estudo, elaborado a partir de 24 modelos climáticos globais do projeto CMIP6, as mudanças no regime de chuvas e temperaturas modificarão os recursos primários que sustentam o setor elétrico do país, sobretudo na disponibilidade de água. As projeções apontam para redução significativa das vazões nos subsistemas Sudeste, Norte e Nordeste, onde se encontram os principais reservatórios hidrelétricos do país, e aumento das afluências no Sul. Essa redistribuição regional da água impacta a capacidade de armazenamento sazonal e impõe um novo desafio à operação integrada do sistema.
Além de afetar a oferta, o aquecimento global também tende a aumentar a demanda por eletricidade, impulsionada pelo maior uso de equipamentos de refrigeração. O estudo estima um crescimento médio de 3% a 4% no consumo de energia nos meses mais quentes, podendo chegar a 6% nos cenários de emissões mais elevadas, justamente nos períodos em que a disponibilidade hídrica será menor.
As simulações mostraram que considerar apenas o clima histórico poderia gerar sobrecustos ao sistema. Já um planejamento adaptado ao novo cenário climático, embora exija investimentos adicionais, reduziria o custo total e aumentaria a segurança do suprimento.
O estudo também destaca que os impactos das mudanças climáticas não serão socialmente neutros, afetando desproporcionalmente as famílias de baixa renda. O trabalho contempla ainda uma análise de medidas regulatórias que podem contribuir para o enfrentamento de cenários climáticos mais adversos pelo setor elétrico.
A pesquisa contou também com o apoio técnico do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE) e da Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA), responsáveis por análises climáticas e dados hidrológicos.
O estudo está disponível aqui.
Sobre a EPE:
A Empresa de Pesquisa Energética (EPE) é uma instituição vinculada ao Ministério de Minas e Energia (MME), responsável por realizar estudos e pesquisas que fundamentam o planejamento do setor energético no Brasil. Atuando nas áreas de energia elétrica, petróleo, gás natural e seus derivados, além de biocombustíveis, a EPE foi criada com o propósito de apoiar a responsabilidade constitucional do Estado em garantir as bases para o desenvolvimento sustentável da infraestrutura energética do país. A EPE desempenha um papel crucial no planejamento energético nacional, conduzindo estudos e pesquisas que resultam em diretrizes e ações essenciais para a política de suprimento de energia. Entre suas publicações mais relevantes estão os Planos Decenais de Expansão de Energia (PDE) e o Plano Nacional de Energia (PNE).
Sobre a Deutsche Gesellschaft für Internationale Zusammenarbeit (GIZ) GmbH:
A GIZ é uma empresa federal de utilidade pública que apoia o Governo Federal da Alemanha em seus objetivos na área de cooperação internacional. A GIZ executa projetos para o governo alemão e para outros governos e instituições de cooperação internacional como a União Europeia. As atividades têm âmbito global, regional e bilateral, com suporte de recursos financeiros provenientes, majoritariamente, do BMZ, BMWK e BMUV (home - giz.de). No Brasil os temas de cooperação são: Energias Renováveis e Transformação Urbana; Formação Profissional e Desenvolvimento Econômico Sustentável; e Proteção e Uso Sustentável das Florestas Tropicais.
Sobre a PSR:
A PSR é uma provedora global de metodologias inovadoras e ferramentas analíticas para otimização do planejamento, operação e gestão de riscos em sistemas energéticos, de estudos de consultoria econômicos, financeiros e regulatórios e contribui ativamente em pesquisas e desenvolvimento de soluções de otimização e data analytics, atuando em mais de 70 países das Américas, Europa, Ásia-Pacífico e África.
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