O mercado fotovoltaico brasileiro está amadurecendo mais rápido que o esperado

abril 6, 2018 Emiliano Bellini

O mercado brasileiro de energia solar parece pronto para assumir a forma de um mercado fotovoltaico maduro, após os resultados do leilão A-4, realizado na última quarta-feira, que resultou em uma baixa surpreendente no preço da tecnologia solar.

O preço médio final de todos os projetos de energia solar selecionados na licitação, efetivamente, alcançou um preço de 118 reais (US $ 35,2) / MWh. Este preço não só caiu em 62,2% do preço máximo fixado para o fotovoltaico no leilão, que foi 312 reais (US $ 93,4) / MWh, mas também de 18,6% comparado ao preço final do leilão realizado em dezembro, que viu os projetos solares atingirem um preço médio de R $ 145,78 (US $ 43,6) / MWh.

Embora um resultado abaixo de US $ 40 pudesse ser considerado provável, um preço final US $ 5 mais baixo não teria sido uma aposta fácil, mesmo para o analista mais experiente do mercado brasileiro de renováveis. “Na verdade, esperávamos uma redução de preço, mas não tão acentuada, o que foi uma surpresa positiva, uma vez que coloca o Brasil entre os países que podem produzir energia solar fotovoltaica a menos de US $ 40 por MWh”, disse a pv magazine o presidente da Empresa de Pesquisa Energética (EPE), Luiz Augusto Barroso.

Segundo ele, esse patamar de preço pode permanecer constante ou até mesmo diminuir para os próximos leilões, seguindo a tendência mundial. “Este patamar de preço além de contribuir para redução das tarifas de eletricidade, evidencia que os investidores conseguem retorno financeiro, uma vez que as ofertas seguem uma lógica econômica, refletindo em um produto comercial e com engenharia financeira, desenvolvido pelos investidores”, ele acrescentou.

Apesar deste resultado positivo, Barroso confirmou que a tecnologia solar não competirá no próximo leilão de energia A-6, uma opção que estava sendo considerada anteriormente pela EPE, como o próprio Barroso disse no início de março em uma entrevista à pv magazine. “Como mencionei na nossa última entrevista, uma das razões para não incluir a energia fotovoltaica, do ponto de vista técnico, é o tempo de construção e a constante inovação que está reduzindo os preços da fonte”, disse ele. “Isso não significa que a energia solar terá o seu espaço reduzido na matriz elétrica brasileira. Na verdade, é exatamente o inverso: com estes patamares de preços, tornou-se uma fonte sustentável e o fato de não participar no leilão A-6 deste ano não significa que não participará de outros leilões no futuro, com tecnologias caracterizadas pelos prazos de entrada em operação mais curtos e excluindo outras tecnologias ou fontes com necessidade de prazos maiores para instalação”, explicou Barroso.

Além disso, Barroso disse que os patamares atuais de preços alcançados pela tecnologia fotovoltaica justificam a decisão recente do governo para alterar o tipo de contrato que hoje é oferecido às energias renováveis, ​​para um contrato por quantidade, em que o gerador assume o risco de mercado associado à variabilidade de produção de energia, risco assumido atualmente pelos consumidores. “Dado que os produtores de energia sabem mais sobre o sol e o vento do que os consumidores, eles estão mais preparados para gerenciar o risco da produção, incluindo o desenvolvimento de portfólios como mecanismos de cobertura. Esta mudança na modalidade contratual virá no próximo leilão A-6 para a energia eólica e eventualmente se estenderá, também, à energia solar nos próximos leilões, “acrescentou Barroso.


Preços agressivos

Menos surpreso parece Marcio Takata, diretor da consultora brasileira Greener, que em uma declaração a pv magazine disse esperar um leilão muito competitivo, tendo em conta o grande número de projetos fotovoltaicos competindo no concurso, cuja capacidade total foi em torno de 20 GW. “Além da alta competição, a combinação de diferentes fatores foram importantes para uma precificação tão agressiva dos contratos: composição de estruturas de capital mais eficientes, receitas adicionais com a antecipação do inicio de operação das usinas, sinergias com o ganho de escala dos projetos além da acelerada curva de aprendizado do setor são fatores fundamentais para usinas mais eficientes do ponto de vista técnico e financeiro”, afirmou Takata. Por outro lado, ele também observou a necessidade de considerar algumas variáveis ​​importantes com um impacto direto sobre a rentabilidade do projeto, tais como a  taxa de câmbio, juros e acesso ao financiamento, que sofrem forte influência do ambiente politico econômico. “Outro ponto de atenção, é o preço dos módulos fotovoltaicos, que apesar da tendência de redução de custos no médio e longo prazos estão sujeitos às incertezas e volatilidade do mercado internacional. São elementos de risco dos projetos que espero que tenham sido adequadamente precificados”, concluiu.


Planos do governo

O presidente da associação solar brasileira Absolar, Rodrigo Sauaia, disse à pv magazine: “O preço médio final da energia solar foi impressionante e a baixa de preço foi mais forte do que o esperado”. Ele também acredita que a tendência de redução de preço a longo prazo da energia solar fotovoltaica no Brasil é sólida. Os analistas de mercado preveem que a energia solar vai se tornar uma das fontes mais baratas de energia elétrica no mundo na próxima década, de acordo com ele, e a forma como isso se reflete no Brasil “vai depender do compromisso do governo de aproveitar o recurso imenso do país e incorporar a tecnologia como motor de crescimento social, econômico e ambiental”.

Em seu comunicado de imprensa sobre o resultado do leilão, Absolar disse que a queda acentuada dos preços se deve principalmente a três fatores principais: (i) a redução no preço dos componentes fotovoltaicos; (ii) o forte aumento do valor do Real frente ao dólar no último ano; e (iii) aumento da concorrência entre todos os participantes do mercado.

“O MME e a EPE estabeleceram um cenário no PDE 2026 no qual desafiaram o setor solar fotovoltaico a reduzir seus preços em aproximadamente 40% até 2023. Cumprimos esta meta, demonstrando na prática o ganho de competitividade da fonte, e ainda antecipamos esta redução de preços em mais de cinco anos, em benefício de toda a sociedade brasileira. Desse modo, cabe ao Governo Federal fazer a sua contrapartida e ampliar os volumes de contratação anual da fonte na nova versão do PDE prevista para este ano, passando de 1 GW para 1,9 GW de contratação anual, conforme as diretrizes do PDE 2026”, disse Sauaia.


Mais detalhes sobre os projetos

Absolar também revelou que a capacidade solar contratad será implantada nos estados do Ceará (390 MW), Piauí (179,9 MW) e Pernambuco (66,9 MW), todos localizados na região Noroeste do país, e Minas Gerais ( 169,9 MW), no sudoeste do Brasil.

Segundo a Reuters, os vencedores de projetos de energia solar foram o fabricante chinês-canadense Canadian Solar, que também opera uma fábrica de módulos solares de 400 MW no Brasil, o desenvolvedor espanhol Elecnor e duas empresas brasileiras, o provedor de serviços de engenharia e SteelCons o distribuidor de energia Kroma.

O crescimento da demanda no setor elétrico no Brasil é diretamente proporcional à retomada do crescimento econômico, disse Maria Luisa Cravo Wittenberg, gerente de investimentos da Apex-Brasil.

“O leilão realizado ontem é um marco neste processo, que demonstra uma demanda crescente por fontes de energia renováveis”, disse ela à pv magazine. “Agora há uma clara oportunidade de fortalecer a busca por parceiros, a fim de garantir a execução bem-sucedida desses projetos, o que poderá resultar em mais investimentos no setor nos próximos anos. Os investidores certamente podem continuar contando com o apoio da Apex-Brasil para encontrar alianças estratégicas “, acrescentou.

Fonte: PV MAGAZINE





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